Guia de privacidade online
Este é o conjunto mais indicado hoje para preservar sua privacidade na internet. Como usar cada ferramenta depende da sua segurança operacional, então pesquise antes de escolher. Privacidade é um direito.
Tails
Use Tails para uma tarefa e uma identidade por inicialização. Ao desligar, a sessão acaba.
Baixe a imagem do Tails de seu site oficial, confira a assinatura do arquivo e grave-a num pendrive exclusivo para este fim. Recomendo usar um notebook também exclusivamente para este fim. Inicie o computador com o pendrive do Tails e dê boot no sistema.
Use o Tor. Sem ponte, a rede sabe que houve conexão ao Tor. Se a mera conexão com o Tor trouxer riscos, use uma bridge e troque-a por outra quando oportuno. Mantenha a troca de endereço MAC ligada e a persistência fechada. Não defina senha de administração nem altere o Tor Browser. Qualquer intervenção sua é um registro rastreável.
Crie um email, o nome de usuário e os meios de recuperação nessa sessão. Não use contas, números de telefone ou arquivos já ligados a você. Antes de enviar um arquivo, remova os metadados. Use OnionShare ou grave somente o resultado num volume de disco criptografado.
Câmeras, presença no local, registros da rede, horário, volume de tráfego, escrita e metadados ainda podem ligar a sessão a você. Existem formas de rastreamento em nível de hardware. Você pode pesquisar firmwares open source para seu modem caso seu OpSec exija, mas tenha consciência de que, com recursos suficientes, especialmente se o rastreio for além do digital, você nunca estará conectado à internet e plenamente anônimo.
Se a máquina estiver comprometida, nada disso basta. Sempre cheque dispositivos internos e externos cuja função você não conheça exatamente. Mesmo assim, modelos de espionagem sofisticados podem ligar sua atividade a CPUs específicas. Se você só quer proteger seus dados, não precisa se preocupar com isso. Se você é um dissidente político em um país autoritário, mantenha isto em mente.
Para reduzir sinais, separe computador, local e conexão exclusivos para fins de segurança, deixe aparelhos pessoais longe, mantenha pouco tráfego, prefira comunicação assíncrona e evite horários ligados à sua rotina.
Documentação: avisos do Tails e instalação.
Qubes OS com Whonix
Use Qubes OS com Whonix quando precisar reutilizar um pseudônimo sem misturá-lo à sua vida pessoal. A qualidade amnésica do Tails pode ser um engasgo operacional; a combinação de Qubes OS com Whonix também pode ser ainda mais segura, dependendo do seu nível de risco.
Comece com um computador compatível e o disco cifrado. Mantenha o dom0 sem acesso à rede e sem arquivos ou programas de trabalho. Atualize Qubes OS, Whonix Gateway e Whonix Workstation antes da sessão.
Mantenha um qube Whonix por pseudônimo e as senhas num qube sem rede reservado à mesma identidade. Abra o Tor Browser num Whonix descartável ligado ao sys-whonix. Antes de escrever, confira o nome do qube e a NetVM.
Abra anexos em outro descartável, sem rede. Transfira por qrexec apenas texto ou arquivos limpos. Ao terminar, feche o descartável, confirme que ele foi eliminado e desligue o sys-whonix.
Uma conta conhecida, um arquivo no qube errado, a NetVM errada, o horário ou vestígios no computador principal desfazem a separação. Dom0 ou uma máquina comprometida expõe todos os qubes. Se o risco justificar, separe também computador, local e conexão. Guarde segredos num qube sem rede e abandone qualquer máquina comprometida.
Documentação: instalação do Qubes OS e Whonix descartável.
Celular
Use um Google Pixel compatível com GrapheneOS, sem chip, ligado apenas ao Wi-Fi e ao Tor Browser.
Reserve o aparelho para uma única identidade e deixe o telefone pessoal de fora. Não instale SIM ou eSIM. Mantenha o modo avião ligado e religue somente o Wi-Fi.
Não associe ao perfil backups, conta Google, número conhecido, contatos pessoais ou Google Play. Use uma rede sem cadastro pessoal e troque o endereço MAC a cada conexão.
Navegue apenas pelo Tor Browser oficial, com uma ponte se o uso do Tor precisar ficar oculto e nível Safer ou Safest quando possível.
Retire a permissão de rede dos outros aplicativos e nunca abra links noutro navegador.
A compra e a posse do aparelho, câmeras, registros do Wi-Fi, horário, escrita e qualquer aplicativo fora do Tor continuam visíveis. O Tor Browser para Android não tem Nova identidade. Diante de vigilância física, controle da rede, correlação ampla ou risco de apreensão com o aparelho aberto, passe para Tails ou Qubes OS com Whonix.
Documentação: rede celular, privacidade do Wi-Fi e uso seguro do Tor Browser.
PGP
Use OpenPGP por meio do GnuPG para assinar arquivos e cifrar mensagens. PGP é o nome pelo qual o padrão ficou conhecido, Pretty Good Privacy.
Por exemplo, você pode cifrar uma mensagem usando a chave pública do seu destinatário. Assim, apenas quem detiver a chave privada associada àquela chave pública conseguirá decifrá-la. Seu provedor de email ou qualquer pessoa com acesso às suas mensagens não conseguirá ler o conteúdo.
A chave pública pode ser distribuída. A chave privada assina e decifra, e nunca deve sair do seu controle. Instale GnuPG, execute gpg --full-generate-key, escolha uma frase-senha longa e anote a impressão digital completa.
Exporte a chave pública com gpg --armor --export IMPRESSÃO_DIGITAL > chave.asc. Para usar a chave de outra pessoa, rode gpg --import chave.asc e gpg --fingerprint IMPRESSÃO_DIGITAL. Compare a impressão digital por outro canal antes de confiar nela.
Assine com gpg --armor --detach-sign arquivo e envie o original junto da assinatura .asc. Quem recebe verifica com gpg --verify arquivo.asc arquivo. Uma assinatura válida prova que aquela chave assinou aquele conteúdo. O vínculo com uma pessoa depende da conferência da impressão digital.
Cifre com gpg --armor --encrypt --recipient IMPRESSÃO_DIGITAL arquivo. A chave privada correspondente abre o resultado com gpg --output arquivo --decrypt arquivo.asc.
Guarde a chave privada e um certificado de revogação em mídia cifrada fora da máquina e teste essa cópia. PGP protege o conteúdo, mas não oculta remetente, destinatário, assunto, horário, IP, tamanho ou aparelho. Se a máquina estiver comprometida, o texto e a chave privada ficam expostos.
Se você preferir uma interface gráfica para facilitar o uso de PGP, recomendo o Kleopatra.
Documentação: exemplos do GnuPG, comandos, OpenPGP e a chave do site.
Dinheiro
Para pagamentos digitais privados, use Monero.
No Bitcoin, valores, endereços e ligações entre transações são públicos. Quando um endereço é ligado a uma pessoa, seu histórico pode ser estudado. No Monero, as ring signatures ocultam quem paga, endereços descartáveis ocultam quem recebe e o RingCT oculta o valor.
Isso torna o XMR fungível por ausência de histórico ou contexto. Uma unidade não carrega um passado público e vale o mesmo que qualquer outra. Trate-o como meio de pagamento. É o padrão usado por gente que corre risco de vida e precisa transacionar anonimamente, e também a moeda-franca do mercado negro digital. O preço varia muito, e o grande público não possui interesse em privacidade via de regra. Guardar XMR esperando valorização é outro assunto.
Use a GUI ou CLI oficial, confira o arquivo, mantenha a carteira num qube Whonix próprio e guarde a frase-semente fora da rede. Prefira um nó próprio, mesmo podado, ligado pelo Tor. Um nó remoto alcançado pela internet aberta vê seu IP e seus horários.
Crie um subendereço para cada pessoa ou serviço. Só compartilhe chaves de visualização ou de transação para provar um pagamento específico. Cadastro da corretora, banco, entrega, conversa, aparelho, programa malicioso e correlação de horários ficam fora da proteção da blockchain.
Algumas corretoras e jurisdições barram moedas de privacidade. Na União Europeia, o Regulamento 2024/1624 passa a valer em 10 JUL 2027 para prestadores de serviços de criptoativos.
E novamente, Monero é HOJE o padrão-ouro do pagamento digital privado. Existe desde 2014 e superou inúmeras batalhas técnicas e ataques regulatórios, mas o protocolo muda. Mantenha carteira e nó atualizados e troque de ferramenta se surgir algo melhor. Como sempre, verifique o que é usado por quem de fato possui risco.
Documentação: Monero, especificação técnica, Bitcoin e Regulamento 2024/1624.
VPNs
VPNs servem para burlar barreiras geográficas e diminuir sua exposição primária, mas não funcionam para anonimato.
Uma VPN apenas troca o provedor de internet usual por outra empresa que conhece seu IP, sua conta e seus horários. Existem companhias que não coletam logs e aceitam Monero como pagamento, como a Mullvad VPN, porém você estará confiando que nenhum dado rastreável é coletado.
Mensageiros
WhatsApp, Telegram e afins não são seguros.
Apesar de criptografar as mensagens, acessos podem ser comprometidos, números de telefone clonados e, em casos mais extremos, lembre-se de que as companhias por trás destes aplicativos são obrigadas por lei a colaborar com governos para continuar operando em suas jurisdições. Alguma forma de rastreio sempre é coletada e poderá ser compartilhada.
Existem opções open source como Signal e Matrix. Recomendo o uso destas caso seja realmente necessário.