Polarização sem Política
O país que rompe amizades por política concorda em quase tudo. A guerra brasileira continua uma tesoura: duas lâminas encenando um duelo, presas pelo mesmo parafuso. O teatro amorfo usa agora figurino do pensamento que inicialmente o revelou, mas existe um leve otimismo no ar.
Em novembro de 2024, o Instituto Locomotiva fez a eleitores de Lula e de Bolsonaro as mesmas oito perguntas que o Pew Research Center tinha feito meses antes a eleitores de Kamala e de Trump. Oito temas: divisões étnicas, imigração, justiça criminal, posse de armas, religião e governo, identidade de gênero, papel da mulher, família e casamento. A distância média entre os dois campos brasileiros: 19 pontos percentuais. A distância média entre os dois campos americanos: 45.
A imprensa brasileira chama isso de "abismo ideológico". O abismo é americano, se existir. O que o Brasil tem é uma poça d'água com dois times gritando de lados opostos como se fosse o Grand Canyon. Me incomoda como o tamanho da poça é a notícia.
Olhe os números por dentro. Questão racial: 11 pontos de diferença no Brasil, 56 nos Estados Unidos. Imigração: 13 contra 54. Justiça criminal: 3 contra 44, e o consenso que esses três pontos escondem é punitivo: 20 por cento dos eleitores de Bolsonaro e 23 por cento dos de Lula acham que a justiça já é dura o bastante. Os outros oito em cada dez, dos dois lados, querem mais cadeia. As duas exceções reais dizem onde mora a briga brasileira: identidade de gênero abre 37 pontos e posse de armas abre 32. Para quem as vive, são temas substantivos. São também o terreno onde discordar não toca no orçamento e não atrapalha o maquinário, e por isso onde a briga sai mais barata: viram símbolos de pertencimento. E mesmo nelas a distância fica dezenas de pontos abaixo da americana: armas abrem 71 na América.
Uma pesquisa de painel online com 1.185 entrevistados, replicando meses depois perguntas que a Pew fez a outro painel, merece desconfiança de método. O valor dela aumenta porque o achado encaixa no que a academia já mediu em outra frente: as séries do LAPOP não encontram, no Brasil, alinhamento entre identidade de esquerda ou direita e opinião sobre economia. A divisão que organiza o pertencimento não organiza, com a mesma força, o juízo sobre a vida material.
Consenso com embalagem de conflito. Brasileiros que se bloqueiam em grupos de WhatsApp, rompem laços de sangue por política e saem às ruas de verde ou de vermelho convergem no pedido básico que fazem a qualquer governo. Quando a conversa desce do símbolo para a vida, o pedido é velho e pouco performático: segurança, custo de vida, trabalho, serviço que funcione. O dado econômico importa aí: se a identidade de esquerda ou direita não prevê opinião sobre economia, a briga partidária tem dificuldade para virar projeto de país. A única divergência que de fato pesou na década, e a maior que existe, fica fora dessas oito perguntas: a regra do jogo.
A ciência política tem nome para o que eles sentem: polarização afetiva. João Areal mediu a versão brasileira e a encontrou em nível americano, com o detalhe que define o caso: 88 por cento dos eleitores petistas se definiam primeiro pelo que odeiam, antibolsonaristas antes de petistas, e a ideologia, somada às identidades positivas, explica menos de um décimo dessa hostilidade. O ódio é real porque o produto que ele entrega é real: pertencimento. O raro é o conteúdo: ódio de grupo montado sobre o consenso no básico. Jacques Rancière reservou a palavra política para o momento em que o desacordo genuíno sobre a distribuição do comum rompe a ordem estabelecida, e chamou o resto, sem insulto, de polícia: a administração do consenso. Pelo critério dele, o Brasil pratica policiamento e a chama de política.
Nos Estados Unidos, os mesmos temas têm densidade política maior: os 45 pontos mostram uma cisão cultural mais profunda, com eleitores muito mais alinhados em lados opostos. Os 19 pontos brasileiros medem antes a distância entre as lâminas de uma tesoura. As lâminas giram presas ao mesmo parafuso: o Centrão, núcleo parlamentar da classe extrativa que fatura qualquer vencedor. A lâmina não fere a outra lâmina: o corte cai sobre o que está no meio, e no meio está quem produz, quem paga, quem não desfila por nenhum dos dois times. Quem desfila por fé, identidade, conveniência ou interesse próprio compra o produto, mas continua fora da sala onde a máquina reparte o ganho. O barulho sobra e toma protagonismo porque falta sinal para competir com ele, simplesmente não há debate público suficiente sobre o que de fato move o Brasil. Uma das piores consequências do nosso modelo democrático.
A guerra das torcidas aperfeiçoou o modelo teatral: aboliu a plateia. Todo mundo que participa está no palco. A lei garante elenco completo, e o figurino ninguém precisa impor: veste-se de graça, porque o figurino é o produto. O espetáculo roda sem diretor, porque cada participante sai do ensaio pago. O eleitor recebe pertencimento, a única moeda cuja demanda cresce quando todo o resto piora. O político converte incompetência em lealdade: de quem enfrenta um inimigo existencial cobra-se fidelidade, nunca entrega. Por isso o inimigo precisa sobreviver: quando ele desaparece, a cobrança volta para a entrega. O populismo de redes vive dessa permanência. O algoritmo fatura o engajamento, e nada engaja como guerra. Ninguém coordena coisa nenhuma. Os incentivos ensaiam sozinhos. Quando o tema é política, os algoritmos demonstraram que, matematicamente, a dicotomia inflamada é o que mais vende. Os operadores políticos mais inescrupulosos podem então concentrar poder valendo-se do domínio do meio e da performance, em vez do conteúdo. Uma revolução permanente entregue com máxima eficiência.
Todo espetáculo tem custo de produção, e o deste é o mais baixo do gênero, porque o elenco não tem como conferir o roteiro. Dizer isso em voz alta provoca acusação imediata de elitismo. Os dados não se ofendem. O Inaf, indicador que mede alfabetismo funcional desde 2001, encontrou no ano passado o mesmo patamar de 2018: 29 por cento dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais, e apenas um em cada dez atinge proficiência plena, a capacidade de comparar textos e avaliar argumentos. No PISA, metade dos estudantes de 15 anos fica abaixo do nível básico em leitura, e 73 por cento em matemática, o piso que a OCDE define como mínimo para exercer cidadania. E a medida mais direta dispensa teste: o Datafolha perguntou, duas semanas depois da eleição de 2010, em quem o eleitor tinha votado para deputado federal. Trinta por cento já tinham esquecido. Em 2022, quatro anos depois do voto de 2018, 64 por cento não lembravam. O voto que estrutura a Câmara evapora da memória de quem o deu antes de o eleito tomar posse.
Esse eleitor decide quem controla os 3 trilhões de reais que a União arrecada. E o sistema o obriga a decidir: o Brasil é um dos pouco mais de vinte países do mundo com voto obrigatório em lei, e um dos poucos, cerca de onze, que punem quem falta. O resultado da obrigação aparece na própria urna: no segundo turno de 2022, 32,2 milhões de aptos não compareceram e mais 5,7 milhões anularam ou votaram em branco. Quase 38 milhões, um em cada quatro aptos, não escolheram ninguém. A América, sem obrigação alguma, deixa um em cada três em casa. O número brasileiro impressiona pelo contexto: é o piso de desinteresse que nem a lei consegue comprimir. A democracia eleitoral brasileira cumpre sua função pela encenação, com plateia obrigada por lei a comparecer. O voto irresponsável do eleitor desinteressado é parte integral do mecanismo.
A objeção imediata, "a culpa é do sistema educacional, não do eleitor", não é completamente errada e não muda nada. Exime a pessoa e condena o arranjo. A questão é funcional. Se o piloto não sabe pilotar, o avião cai, seja de quem for a culpa do treinamento. A democracia entrega ao eleitor uma única tarefa técnica: separar quem sabe governar de quem sabe encenar. A defesa clássica do eleitor desinformado, de Popkin a Lupia, responde que atalhos bastam: a legenda, o endosso, o preço do arroz. A defesa funciona onde existem atalhos. O voto proporcional de lista aberta, com listas do tamanho de catálogos e legendas que não significam nada, é um sistema desenhado para que nenhum atalho sobreviva, e o Datafolha mede o resultado: o atalho que não existe não pode ser lembrado. Quando o eleitor fica sem ferramentas e sem atalhos, o sistema seleciona pelo que sobra, afinidade tribal, e a pesquisa mede o resultado: 19 pontos de diferença, uma disputa sobre quem é o dono da bola num jogo cujas regras ninguém discute.
O achado tem um século de linhagem, e ela tira o argumento do terreno do insulto. Joseph Schumpeter descreveu em 1942 o cidadão que Walter Lippmann já tinha flagrado como um espectador surdo na última fila: "o cidadão típico desce a um nível inferior de rendimento mental assim que entra no campo político. Argumenta e analisa de um modo que ele próprio reconheceria como infantil dentro da esfera de seus interesses reais". Bryan Caplan deu ao padrão um preço em 2007: como um voto individual não muda o resultado, "o preço da irracionalidade é zero", e crenças políticas deliciosas são consumidas como entretenimento, até a saciedade. E Christopher Achen e Larry Bartels enterraram com meio século de dados o que chamam de teoria folclórica da democracia: "eleitores, mesmo os mais informados, tipicamente fazem escolhas não com base em preferências de política ou ideologia, mas com base em quem eles são: suas identidades sociais". O resto é racionalização posterior. Eleitores americanos punem o governo por seca e por enchente, e a dupla calculou que o tempo ruim custou a Al Gore 2,8 milhões de votos e sete estados em 2000, entre eles a Flórida. O eleitor avalia temperatura. O sistema precisa de quem entenda termodinâmica. A democracia custa eficiência em troca de representatividade, aceito o argumento, mas em que ponto a ineficiência torna um vôo turbulento em uma tragédia?
Existe uma defesa matemática do voto de massa, e seu autor pagou por ela. Em 1785, o marquês de Condorcet provou que, se cada votante tem mais de cinquenta por cento de chance de acertar e os votos são independentes, a maioria converge para a decisão correta conforme o grupo cresce. É o teorema do júri, o alicerce probabilístico da sabedoria das multidões. Nove anos depois, proscrito pelo Terror, Condorcet passou oito meses escondido num quarto em Paris escrevendo um tratado sobre o progresso indefinido do espírito humano. Fugiu, foi preso numa estalagem de Clamart com um volume de Horácio no bolso e um nome falso na boca, e dois dias depois amanheceu morto no chão da cela. O matemático da razão coletiva morreu nas mãos da multidão errada. O teorema sobreviveu, com as duas premissas de cabeça para baixo.
Independência: cada eleitor avalia por conta própria. Competência: cada um acerta mais que erra. Krishna Ladha demonstrou em 1992 que a correlação entre os votos corrói a convergência do teorema, e em níveis altos a destrói: quando um milhão de eleitores repete o mesmo grupo de WhatsApp, o mesmo algoritmo de recomendação, a mesma indicação pastoral, o resultado equivale a meia dúzia de julgamentos com um milhão de assinaturas. Os 19 pontos da pesquisa mostram os dois campos repetindo o mesmo gesto de afinidade em oito temas seguidos. Some o mesmo erro um milhão de vezes e ele volta carimbado como soberania popular. A democracia sempre foi falha, e a era informacional apenas potencializou fatores catastróficos.
A parte mais incômoda do argumento é uma concessão. Se Lula e Bolsonaro disputam quem opera a máquina que ambos mantêm, o eleitor que escolhe por afinidade tribal está fazendo a única coisa que o cardápio permite. A escolha individual é racional. O resultado coletivo é disfuncional. As ciências sociais chamam isso de armadilha social, e a pesquisa a documenta sem querer.
E a objeção sofisticada, a de que o sistema às vezes funciona, ilumina mais do que pretende. O Plano Real nasceu dentro da democracia. Meia dúzia de economistas, abrigados por um ministro com lastro político, inventou uma moeda que existiu por quatro meses apenas como unidade de conta, a URV, para sincronizar os preços de uma economia viciada em indexação. A inflação caiu de 47,43 por cento ao mês em junho de 1994 para 1,53 por cento em setembro. Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente em primeiro turno, com 54,3 por cento dos votos válidos, três meses depois de a cédula nova chegar ao bolso do eleitor. O eleitorado avaliou o preço do arroz e premiou quem estava na fotografia quando ele parou de subir. O desenho monetário da URV ficou fora do julgamento. Quando o Brasil produziu competência dentro do sistema eleitoral, foi porque uma minoria técnica capturou o processo decisório por dentro e entregou o resultado pronto para o eleitor ratificar. A seleção operou por resultado percebido, nunca por avaliação de projeto, como Achen e Bartels descrevem. Perceba: a captura técnica da política, não a captura política da técnica. Os competentes precisam decidir mais, e um pequeno otimismo se escora no fato de que o avanço tecnológico que fomentou o problema descrito até aqui, também potencializa o impacto de poucas decisões precisas.
A inaptidão do eleitorado é uma das condições que sustentam a classe extrativa no poder. Eleitorados sofisticados também alimentam extração, o lobby americano compra política com recibo. A diferença é de preço e de teto. Onde o eleitor audita, a extração precisa de advogado, opera na margem e cai quando exagera. Onde o eleitor esquece o próprio voto em duas semanas, ela opera a descoberto e vira linha de orçamento. A guerra dos 19 pontos é o sistema de segurança da máquina: enquanto a raiva mira a torcida adversária, ninguém audita o caixa. A lógica fecha em círculo: um eleitorado de baixa sofisticação produz representantes cuja única competência é gestão de afeto, e esses representantes, no poder, têm incentivo zero para elevar a sofisticação de quem os elege. Quanto mais rasa a base, mais segura a cadeira. O sistema se autorreproduz, e a conta é cobrada de quem produz.
O Brasil arrecada como país rico e entrega como país pobre. Na medida comparável da OCDE, a carga tributária brasileira foi de 33,7 por cento do PIB em 2024, praticamente a média dos países desenvolvidos (34,1) e doze pontos acima da média latino-americana (21,7). O Chile arrecada 20,5 por cento do PIB e o Uruguai 27,3, e os dois entregam mais: o chileno vive 5,4 anos a mais que o brasileiro, estuda numa escola 33 pontos acima da nossa em matemática no PISA e atravessa um país com um terço dos nossos homicídios. O estudo do IBPT que cruza carga tributária com IDH coloca o Brasil em último lugar entre os 30 países de carga mais alta. Catorze edições seguidas, catorze últimos lugares. Sobre quem produz, o desenho é de pressão máxima: na última medição do Doing Business do Banco Mundial, a tributação efetiva consumia 65,1 por cento do lucro comercial de uma empresa média brasileira, contra 39,9 nos países ricos, e a alíquota corporativa de 34 por cento segue entre as vinte mais altas do planeta.
A diferença entre o que se arrecada de Bélgica e o que se entrega de Índia não cabe numa conta única. A parte que deixou recibo aparece nos 6,2 bilhões de reais que a própria Petrobras baixou do balanço de 2014 como perda com o esquema de corrupção que a Lava Jato expôs. A JBS mostra o que o dinheiro compra: pedidos ao BNDES aprovados em 22 dias úteis contra uma média de 150, segundo o Tribunal de Contas, e o método dessa velocidade está descrito em delação premiada. O grupo financiou 1.829 candidatos de 28 partidos, quase 600 milhões de reais, e, nas palavras do diretor que administrava as doações, "tirando esses R$ 10, R$ 15 milhões aqui, o resto tudo é propina". Essa lógica aparece nas 38 pastas com status de ministério, que chegaram a 39 em 2024, empatando o recorde nacional, num país que Fernando Henrique governou com 20 e depois 21, e que os Estados Unidos governam com 15. A aritmética das pastas ficou explícita em setembro de 2023, quando uma medalhista olímpica foi demitida do Ministério do Esporte para acomodar um deputado do Centrão, e um ministério inteiro foi criado na mesma tarde para reacomodar o ministro deslocado. O próprio presidente já admitira a lógica em voz alta, meses antes: "você tem que ter uma maioria porque senão você se mata". Sérgio Abranches batizou o regime em 1988 de presidencialismo de coalizão. A prateleira de cargos é o preço de tabela da governabilidade. É o parafuso em linguagem administrativa.
Também aparece no orçamento que o Congresso reservou para si: dezenas de bilhões de reais autorizados em emendas parlamentares, e o que se executa vem equivalendo a mais de um quarto de tudo o que a União pode escolher onde gastar. Desse bolo, uma fatia considerável são as "emendas Pix", transferências diretas em que, segundo a Transparência Brasil, menos de 1 por cento do valor identificava destino e uso na lei orçamentária. Quando o Supremo mandou auditar, a Controladoria examinou as vinte entidades que mais receberam e encontrou zero em plena conformidade. Aparece ainda nos supersalários de um Judiciário cujo rendimento líquido médio, 54,9 mil reais mensais em 2024, supera o teto constitucional bruto de 44 mil. Foram 10,5 bilhões de reais pagos acima do teto num único ano. Neste ano a previsão é de quase 15. Raspa-se o tacho de um sistema moribundo pela sua insustentabilidade matemática. O mantra é “aproveite quem puder”.
O teatro e a máquina giram no mesmo parafuso. A extração piora os serviços. A piora produz raiva, e raiva precisa de endereço: o teatro entrega a torcida adversária, nunca a máquina, que segue faturando atrás do palco. A parte barulhenta precisa do inimigo permanente. O parafuso precisa da barulheira protegendo o caixa. A fala sobe de tom a cada ciclo, e a execução repete o preço de sempre. E a mesma decadência que produz a raiva desmonta as fontes antigas de pertencimento, o emprego estável, o bairro, a paróquia, fabricando cliente novo para a identidade tribal que o teatro distribui de graça. A decadência fabrica a demanda pelo teatro que protege a causa da decadência. Conspiração é desnecessária em elo nenhum. Cada peça, perseguindo o próprio incentivo, mantém as outras girando.
O jovem produtivo olha essa equação e chega, por aritmética simples, a uma conclusão: ele é tributado para financiar a própria subjugação. Cada real confiscado da sua produção alimenta o sistema que o eleitor sem ferramentas políticas mantém no poder, e que por sua vez o conserva sem ferramentas políticas.
A resposta dele já está em curso, e tem números. O imposto sobre a produção funciona como filtro seletivo invertido: expulsa quem pode sair e retém quem não pode, e quem pode sair é justamente quem domina as ferramentas que o mercado global compra. O Itamaraty estimava 3,6 milhões de brasileiros no exterior em 2018 e estima 4,9 milhões em 2023. Os brasileiros com residência legal em Portugal eram 85 mil em 2017 e são 485 mil em 2024: mais que quintuplicaram em sete anos. Em 2023, brasileiros receberam 11.751 vistos americanos das categorias reservadas a habilidade extraordinária e interesse nacional, recorde da série, 58 por cento acima do ano anterior. E a fintech que processa salários do exterior mediu o degrau de baixo da mesma escada: na base dela, o número de profissionais que moram no Brasil e trabalham para empresas estrangeiras cresceu 491 por cento entre 2020 e 2022, e, entre os profissionais de tecnologia pagos de fora, oito em cada dez são desenvolvedores, saídos da maior população de programadores da América Latina. É verdade que esses números medem fluxo, e a maioria de quem vai persegue salário antes de filosofia tributária. Eles mostram, ainda assim, o estoque de saída crescendo mais rápido nas categorias que o fisco mais precisaria reter, e o filtro dispensa intenção: basta a porta aberta para quem o mercado global compra. Charles Tiebout deu nome ao mecanismo em 1956, pensando em municípios: votar com os pés.
Edmar Bacha descreveu o Brasil de 1974 numa fábula publicada num semanário de oposição, com subtítulo que envelheceu como profecia: "uma fábula para tecnocratas". O país era a Belíndia, uma Bélgica pequena e rica encravada numa Índia imensa e pobre. Meio século depois, a Belíndia ganhou uma fronteira nova. A Bélgica brasileira trabalha em inglês e recebe em dólar, e o trabalho remoto ainda não a tira do alcance do fisco: o residente paga imposto sobre o que recebe de fora e paga o consumo onde mora. O que ela já tem é a parte cara da mudança pronta: o cliente, a renda forte, a reputação portátil. O corpo em Florianópolis, o contrato em Delaware e a mudança a um voo de distância. O fisco cobra de quem ainda não comprou a passagem. O que a classe política só entendeu pela metade é que essa saída não conta como protesto, não aparece em pesquisa de opinião e não volta. Quando uma massa crítica de produção técnica embarca, o sistema que compra sua base eleitoral com esse dinheiro míngua junto.
Sair é racional para cada um e degradante para o conjunto: a mesma armadilha social de antes, agora com aeroporto. A terceira rota começa quando essa saída deixa de ser fuga individual e vira infraestrutura: contrato, renda, cliente e reputação portáteis antes da mudança física. A base que financiava a compra política encolhe quando embarca, e a competência que a máquina não consegue selecionar aprende a operar com menos dependência dela. Essa rota troca a disputa pelo comando por outra engenharia: tornar dispensáveis pedaços da máquina que antes eram passagem obrigatória, primeiro para quem sai.
No Brasil atual, a via partidária está fechada por estrutura a qualquer projeto que tente conquistar a máquina pelo voto para reformá-la. O parafuso da tesoura tem nome e bancada. O bloco fisiológico que vende apoio a quem estiver no poder, e elege metade da Câmara na contagem mais inocente. Como pode ser cooptado por quem governa, o "centro" do espectro se desloca com o poder: o parafuso acompanha a mão que fecha a tesoura. A dinâmica é assimétrica entre os polos. À esquerda, o radical empurra a janela e o centro-esquerda absorve o que convém, em simbiose. À direita, o radical declarado gasta energia em fogo amigo contra um Centrão disfarçado de centro-direita. Qualquer partido que tente reformar o tabuleiro por dentro joga contra um adversário que reescreve as regras entre as rodadas.
Os tenentes que se levantaram em 1922 marcharam, entre 1925 e 1927, 25 mil quilômetros pelo interior, uma coluna de no máximo 1.500 homens que dez mil soldados não conseguiram destruir, e quando chegaram ao poder na década seguinte redesenharam o Estado: voto secreto, Justiça Eleitoral e voto feminino no Código de 1932, leis trabalhistas, indústria de base. O mesmo arranjo que escreveu o Código de 1932 suspendeu as eleições em 1937. Campos Sales, em 1898, negociou com os Rothschild um empréstimo de 10 milhões de libras dando a alfândega do Rio como garantia, num contrato que obrigava o Tesouro a recolher e incinerar mil-réis em papel: o ajuste deflacionou os preços em quase um terço, e o presidente terminou o mandato vaiado do Catete até a estação de trem. Os tecnocratas de 1964 fizeram o PAEG e o milagre sem consultar ninguém, 11 por cento de crescimento ao ano entre 1968 e 1973, com o Gini subindo de 0,50 para 0,57 nos números de Langoni e a repressão lançada nos livros como custo de operação. O eufemismo contábil era deles, com custos de cassação, censura, porão. Em cada caso, uma minoria técnica concluiu que o eleitorado não autorizaria as reformas que a realidade cobrava, e agiu sem pedir licença. Duas das três vezes, a conta incluiu o que nenhuma planilha redime. Vilfredo Pareto resumiu o padrão numa frase seca: a história é um cemitério de aristocracias. A elite que cai costuma cair para a elite que opera melhor a infraestrutura da época. O voto às vezes troca os ocupantes, como trocou em 2022. O que ele nunca trocou foi a camada que sobrevive a qualquer ocupante. Olavo de Carvalho popularizou o famoso teatro das tesouras, é um de seus muitos méritos, e talvez o mais acessível deles. Mesmo assim, ao fim da vida, teve o desgosto de ver seus “seguidores” entrarem em cena no teatro que denunciou, com sorrisos no rosto. O destino não perdoou sua inaptidão política, mas a história ainda não acabou. Para um filósofo, na verdade, ela raramente começa em vida.
Escrevo novamente, a infraestrutura da época, desta vez, é digital, e a via de contorno não pede coluna armada. A Estônia digitalizou o Estado ao ponto de 51 por cento dos votos da eleição parlamentar de 2023 serem depositados pela internet, e de o divórcio, último serviço público analógico, migrar para o portal em dezembro de 2024. Boa parte da burocracia que sustenta carreiras inteiras no Brasil simplesmente não existe lá: o sistema foi desenhado para que ela nunca nascesse. Para o Brasil, o exemplo vale como prova de possibilidade: pedaços inteiros de burocracia podem desaparecer quando a infraestrutura muda. A diferença entre 1964 e Tallinn é a direção da força: uma minoria tomou o Estado para mandar sobre os outros, a outra reduziu o espaço em que alguém precisa mandar. Isso implica uma classe técnica mais ética que a classe substituída? De modo algum. A história dos tecnocratas no poder é cheia de arrogância, brutalidade e captura. Mas a pressão seletiva tem critério único, a capacidade de operar a infraestrutura que sustenta o resto, e essa capacidade está migrando, transação a transação, para fora das estruturas que o voto popular alcança. O analista mediano que essa seleção aposenta perde o emprego no trimestre. O político mediano ainda tem o voto do eleitor que esquece em quem votou, e a distância entre competência real e poder formal aumenta a cada ciclo.
Resta a objeção honesta: os oito temas da pesquisa deixam de fora a única divergência que importou na década, a regra do jogo. Um campo invadiu a sede dos três poderes em 8 de janeiro de 2023. Um ex-presidente foi condenado em 2025 por tentativa de golpe. Mudar a regra é uma diferença de regime, a maior diferença possível. Diminuir isso destruiria o argumento. A formulação precisa é mais dura: a divergência de regime radicaliza a disputa pela chave, sem produzir um programa substantivo diferente para segurança, custo de vida, trabalho e serviço. Briga-se sobre quem pode ganhar, quem precisa aceitar a derrota e quem opera o aparelho depois da vitória. Por baixo, a máquina seguiu negociando, você seguiu pagando. O Centrão não precisou ir às ruas em 8 de janeiro.
A pesquisa mostra um Brasil que briga pouco pelo que o Estado deve entregar e muito por quem fica com a chave. Vivemos em consenso fantasiado de guerra civil. O botão existe: atacar o aparato burocrático corrompido que sustenta os dois lados. Como esse botão corta a fonte de quem opera a máquina, resta o teatro.
E a pesquisa tem um ponto cego, porque opinião declarada não mede ausência. Existe a categoria crescendo fora dos dois campos, a classe que olha os 19 pontos e vê o que eles medem, a folga entre duas lâminas da mesma tesoura. Essa classe não usa camiseta de time, ignora a corrente no grupo da família e assiste ao comício de longe, pela metade de um story alheio. Calcula, silenciosamente, quanto da própria produção o sistema consome para se perpetuar, e escolhe entre as duas saídas que a aritmética deixou abertas: a jurisdição alheia ou a infraestrutura própria. As duas são o mesmo movimento: largar a disputa pelo cabo e sair do meio da tesoura.
É um grupo pequeno, e pequeno sempre foi o tamanho suficiente aqui. Os tenentes eram 1.500. Os economistas da URV cabiam em uma sala. Nos casos que este ensaio mobilizou, a reorganização veio de uma minoria que chegou quando a conta da incompetência venceu. Desde 2025 ela tem partido, líder, e base. Todas chegaram para tomar o aparelho, não pode existir outro objetivo.
A.R.C.
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